Recuperação judicial deixou de ser o último recurso? Empresas passam a buscar reorganização antes do colapso

Crescimento dos pedidos e mudança de comportamento empresarial indicam que a recuperação judicial vem sendo utilizada cada vez mais como ferramenta de reestruturação, e não apenas como medida extrema

Por Elaine D'Ávila

A recuperação judicial vem passando por uma mudança de percepção no ambiente empresarial brasileiro. Tradicionalmente associada a empresas em situação extrema, a ferramenta passou a ser considerada por muitas companhias como um mecanismo de reorganização financeira antes que a crise comprometa definitivamente a operação.

O movimento ocorre em um cenário marcado por juros elevados, crédito mais restrito e aumento dos custos operacionais. Dados divulgados por entidades como a Serasa Experian e a FecomercioSP mostram que os pedidos de recuperação judicial cresceram significativamente nos últimos anos, refletindo as dificuldades enfrentadas por empresas de diversos setores da economia.

Ao mesmo tempo, casos recentes envolvendo grandes grupos empresariais reforçam uma nova lógica de mercado: a busca por instrumentos de reestruturação antes da interrupção das atividades ou do esgotamento completo do caixa.

O tema também chegou ao debate público. Em entrevista ao Valor Econômico, o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, afirmou haver preocupação do governo com o que chamou de uma possível “indústria da recuperação judicial” em determinadas regiões do país, defendendo uma discussão futura sobre eventuais aperfeiçoamentos na legislação.

Para o Dr. Bruno Gameiro, especialista em reestruturação de dívidas e recuperação judicial, é importante separar eventuais abusos da finalidade legítima do instituto.

“A recuperação judicial foi criada para preservar empresas economicamente viáveis. Quando utilizada de forma responsável e no momento adequado, ela permite reorganizar passivos, preservar empregos, manter a atividade empresarial e criar condições para a superação da crise”, afirma.

Segundo Bruno, uma das principais mudanças observadas nos últimos anos é justamente a antecipação das decisões por parte de algumas empresas.

“Existe uma percepção cada vez mais consolidada de que a recuperação judicial não precisa ser encarada apenas como uma medida de última instância. Em muitos casos, ela pode representar uma ferramenta de reorganização capaz de evitar o agravamento da crise”, explica.

O custo da demora

Embora o instrumento tenha ganhado espaço nas estratégias de reestruturação empresarial, especialistas alertam que o tempo continua sendo um fator determinante para o sucesso de qualquer processo de reorganização.

Sinais como pressão constante sobre o caixa, renegociações recorrentes, dificuldade de acesso a crédito e aumento do endividamento costumam surgir muito antes do pedido de recuperação judicial.

Para Bruno, ignorar esses sinais pode reduzir significativamente as alternativas disponíveis.

“O maior risco costuma ser a demora na tomada de decisão. Quanto mais a empresa posterga o enfrentamento da crise, menores tendem a ser as opções de reestruturação e maior costuma ser o custo financeiro e operacional do problema”, alerta.

Mais do que uma discussão jurídica, a recuperação judicial vem se consolidando como um tema de gestão empresarial. Em um ambiente econômico cada vez mais desafiador, a capacidade de identificar o momento adequado para agir pode ser determinante para a continuidade dos negócios.

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