Casos envolvendo Casas Bahia, Marabraz, Grupo Gennius e Chilli Beans mostram como o endividamento e a falta de liquidez podem comprometer empresas que continuam operando e vendendo
Por Elaine D'Ávila
Os recentes movimentos de reestruturação envolvendo empresas conhecidas do mercado brasileiro reforçam um alerta: manter as vendas e as operações em funcionamento não significa, necessariamente, possuir liquidez para pagar dívidas e sustentar o negócio.
Casas Bahia e Marabraz recorreram à recuperação judicial. O Grupo Gennius, responsável por marcas como Habib’s e Ragazzo, também apresentou pedido de recuperação judicial. A Chilli Beans, por sua vez, ainda não ingressou com o pedido, embora notícias recentes indiquem um processo de reestruturação financeira.
Apesar das diferenças entre os casos, as empresas enfrentam um ambiente marcado por crédito caro, margens pressionadas, endividamento acumulado, mudanças no comportamento do consumidor e custos elevados para manter lojas, estoques e operações de grande alcance.
Vendas não garantem liquidez
Uma empresa pode ter uma marca reconhecida, manter unidades abertas e continuar vendendo, mas não gerar caixa suficiente para cumprir suas obrigações.
Isso acontece quando o custo da dívida e os compromissos financeiros crescem mais rapidamente do que a capacidade de geração de recursos. Nesse cenário, uma parcela crescente do caixa passa a ser destinada ao pagamento de juros e dívidas anteriores, reduzindo o espaço para financiar estoques, manter o capital de giro e investir na operação.
Os números demonstram que essa pressão não está restrita às grandes marcas. Segundo a Serasa Experian, a inadimplência empresarial alcançou 9,2 milhões de CNPJs em julho de 2026, com R$ 238,6 bilhões em dívidas negativadas.
A crise começa antes de se tornar pública
Para a advogada empresarial do Gameiro Advogados, Dra. Luciana Abreu, uma crise financeira normalmente começa muito antes de chegar às manchetes.
“Antes do pedido de recuperação judicial, geralmente existe uma deterioração silenciosa, marcada pelo aumento das despesas financeiras, pela dificuldade de renovar o crédito e pelo uso crescente do caixa operacional para sustentar dívidas antigas”, explica.
A identificação antecipada desses sinais amplia as possibilidades de negociação e permite que a empresa avalie medidas de reorganização antes que o agravamento da crise limite suas alternativas.
Recuperação judicial como instrumento de reorganização
A recuperação judicial não representa, por si só, o encerramento da atividade empresarial. Quando utilizada por uma empresa economicamente viável, pode proporcionar um ambiente jurídico organizado para negociar o passivo e estabelecer condições de pagamento compatíveis com sua geração de caixa.
“Os casos recentes mostram que a reestruturação precisa começar antes que a empresa perca sua capacidade de negociação. O faturamento continua sendo importante, mas não é suficiente para sustentar uma estrutura financeira desequilibrada”, afirma Luciana Abreu.
Mais do que observar qual poderá ser a próxima marca a enfrentar dificuldades, o mercado precisa analisar quantas empresas continuam vendendo, mas já encontram obstáculos para suportar o custo das próprias dívidas.


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